Corpo e mente
Luis Fernando Verissimo
Mente e corpo têm uma relação parecida com a de pais e filhos. A mente cuida do corpo e tenta regular os seus hábitos e apetites e protegê-lo dos seus excessos. É sempre mais sensata, previdente - enfim, mais adulta - do que o corpo, que se não fosse por ela nem se criaria. Mas com o tempo a relação vai mudando, e assim como os filhos aos poucos adquirem autonomia e passam a não depender tanto da atenção dos pais, o corpo também começa a dar folga à mente. Como, por exemplo, deixá-la dormir até mais tarde enquanto ele levanta da cama, escova os dentes, etc., faz seu próprio café e sai. Você já deve ter tido esta experiência. Está na rua há horas, ou no seu trabalho, ou no meio de uma aula, quando a sua mente subitamente acorda, olha em volta e reclama:
- Por que você não me acordou?
- Não precisava - responde o seu corpo.
- Onde estamos? O que está acontecendo? Meu Deus. Você levantou da cama, escovou os dentes, tomou café, saiu para a rua e chegou até aqui - sozinho?!
- Foi.
- Você é um desmiolado!
- Certo. Mas agora preciso de você.
- Calma, calma. Antes, tenho de tomar um café pra acabar de acordar. Há casos em que a mente só acorda no meio da tarde. Outros em que o corpo volta para casa à noite e a mente ainda está dormindo. Aí o corpo vai ver televisão, para não despertá-la.
Com o tempo, a relação mente e corpo muda de outras maneiras também. Antes, era o corpo que queria (sexo, comida, festa, emoções) enquanto a mente pedia moderação. Depois a mente é que quer e o corpo é que diz "Tá doida".
- Vamos! A noite nos espera - diz a mente.
- Vai você - diz o corpo, se espreguiçando.
- Sem você não tem graça. Sem você não tem sentido. Ou eu não tenho sentidos. Nem transporte. Vamos!
- Não era você que me dizia para pensar bem antes de obedecer meus impulsos? Pois eu pensei bem, e desta poltrona ninguém me tira.
- Você não tem que pensar. Eu é que penso por você.
- Ultimamente, só pensa besteira.
- Sim! Besteira. Loucuras. Vida. Vamos!
- Sossega, mente.
Antes, o corpo é levado pela paixão, ouvindo alertas da mente o tempo todo. "Cuidado", "Olha lá o que você vai fazer", "Pense nas consequências", "Não esquenta", "Te controla". O corpo ouve ou não ouve, obedece ou não obedece, mas, entre vexames e arroubos bem-sucedidos, mantém-se a harmonia familiar. Depois, o diálogo se inverte.
A mente:
- Eu vou lá dar uma mordida nessa bunda.
O corpo:
- Não vai não.
A mente:
- Ah, vou.
- Não conte comigo.
- Covarde.
- Tente pensar em outra coisa.
- Não posso. Tenho de morder essa bunda.
- Pense no que você vai ter de fazer para morder a bunda. Primeiro, subir na passarela. Com as suas condições físicas, não conseguiria. Os seguranças certamente interviriam e você acabaria apanhando. Teria de correr atrás da modelo, que fugiria de você. Se conseguisse alcançá-la, teria de escolher a nádega e morder a bunda na primeira tentativa, porque não haveria uma segunda. Pense no escândalo, nas fotos nos jornais, na cena na TV.
- Não interessa. Vou morder essa bunda. E é agora. Você está pronto?
- Claro que não.
- Um, dois e...
- Mente: odeio usar a mesma frase que você vivia me dizendo contra você, mas é a única que cabe neste momento.
- Que frase?
- Comporte-se.
Domingo, 13 de julho de 2003.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.